Do Canadá ao Brasil: aplicações isotópicas ajudam a entender “a idade” das águas subterrâneas
Do Canadá ao Brasil: aplicações isotópicas ajudam a entender “a idade” das águas subterrâneas
Missão científica em laboratório internacional de referência busca expandir o uso de técnicas que revelam a origem e o tempo de permanência da água no subsolo brasileiro
Brasília (DF) - A pesquisadora do Serviço Geológico do Brasil (SGB), coordenadora do Programa Nacional de Aplicações Isotópicas na Hidrologia (DEHID-DIHAPI), Isadora Aumond Kuhn, concluiu em abril uma imersão científica na University of Ottawa, no Canadá. A agenda contemplou atividades no laboratório Andre Lalonde AMS, referência mundial em Espectrometria de Massas com Aceleradores (Accelerator Mass Spectrometry - AMS) para estudos com isótopos. O objetivo principal foi conhecer infraestruturas laboratoriais avançadas, identificar estratégias para expandir essas pesquisas no Brasil e estabelecer colaboração em técnicas analíticas não disponíveis no Brasil e América Latina, fortalecendo o Programa Nacional de Aplicações Isotópicas na Hidrologia .
Durante a missão científica, o SGB apresentou estudos realizados no Sistema Aquífero Guarani (SAG) como estudo de caso e promoveu troca de conhecimentos com especialistas internacionais sobre o uso dessas geotecnologias em diagnósticos ambientais e na gestão estratégica de recursos hídricos.
“De forma simples, as técnicas isotópicas funcionam como uma espécie de ‘relógio geológico’ da água. Tecnicamente, elas atuam em três frentes principais: como rastreadoras da origem e caminhos do fluxo; como cronômetros naturais para datação; e como arquivos para a reconstrução de condições ambientais do passado”, explica Isadora Kuhn. Ainda segundo a pesquisadora, essas medições permitem determinar há quanto tempo a água está no subsolo, variando de poucos anos a milênios, além de identificar sua procedência e as condições climáticas, como a temperatura da época, em que ocorreu a infiltração.
Isadora pontua que, no caso do Sistema Aquífero Guarani, essa aplicação é ainda mais estratégica pois, por estar majoritariamente abaixo da superfície e possuir uma extensão vasta com características geológicas variadas, sua dinâmica não pode ser observada diretamente, sendo seu funcionamento um desafio. “A utilização dessas ferramentas ajuda a reduzir incertezas científicas nos modelos conceituais e elevar a precisão das análises sobre os vetores de fluxo e as taxas de recarga da água”, detalha a representante do SGB.
Importância do Sistema Aquífero Guarani
O SAG é uma das maiores reservas de água doce do mundo e desempenha papel fundamental no abastecimento e na segurança hídrica da América do Sul, tornando o conhecimento sobre seu funcionamento essencial para orientar políticas públicas e o uso sustentável, especialmente diante do aumento da demanda e dos períodos de seca, acentuados pelas mudanças climáticas.
Para a pesquisadora Isadora Kuhn, a experiência internacional fortalece a capacidade técnica do SGB e abre portas para colaborações em diferentes frentes de pesquisa e para a incorporação de novos tipos de isótopos.
Como próximos passos, o trabalho prevê o aprofundamento dos estudos sobre o SAG e a ampliação do uso de técnicas isotópicas em diferentes contextos ambientais, com o objetivo de consolidar parcerias que permitam pesquisas mais integradas ao cenário científico global. Entre os desafios prioritários estão o avanço na compreensão da dinâmica detalhada de recarga em distintas regiões geográficas, a análise da interação hidráulica entre águas de diferentes idades e a avaliação da resposta do sistema às pressões climáticas e ao uso intensivo, de modo a gerar conhecimento aplicado que garanta uma gestão resiliente e eficiente para as próximas gerações.
Ana Lúcia Ferreira
Assessoria de Comunicação
Serviço Geológico do Brasil
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