Dados do SGB subsidiam descoberta de fonte hidrotermal ativa a 4 mil metros de profundidade no Atlântico

03/06/2026 às 21h02
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Expedição do Schmidt Ocean Institute localizou o sistema na Dorsal Mesoatlântica com apoio de dados geocientíficos produzidos pelo SGB


Brasília (DF) – Informações geocientíficas produzidas pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) contribuíram para a descoberta de um novo sistema hidrotermal ativo no fundo do Oceano Atlântico. A confirmação ocorreu na última semana durante uma expedição científica internacional realizada a bordo do navio Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, dos Estados Unidos.

A área investigada faz parte da Dorsal Mesoatlântica e havia sido estudada pelo SGB, no âmbito do Projeto Procordilheira, realizado com recursos do PAC. Na época, pesquisadores identificaram indícios de atividade hidrotermal submarina. Entre os nove sítios apontados como promissores, um deles teve a existência confirmada por meio de observações diretas realizadas com um veículo operado remotamente (ROV).

Fontes hidrotermais, conhecidas como fumarolas, estão entre os ambientes mais difíceis de localizar nos oceanos. Apesar de sua relevância científica, costumam ocupar áreas relativamente pequenas e situam-se em regiões remotas e profundas, tornando sua identificação um desafio tecnológico.

Nas dorsais mesoceânicas, cadeias de montanhas submarinas que atravessam os oceanos, o calor proveniente do interior da Terra provoca fraturas na crosta oceânica. A água do mar infiltra-se por essas estruturas, aquece em profundidade e retorna à superfície carregando minerais dissolvidos. Esse processo dá origem às chamadas fontes hidrotermais, ambientes raros que concentram metais e sustentam ecossistemas capazes de sobreviver sem a presença da luz solar.

Mapa do segmento 8°N da Dorsal Mesoatlântica Equatorial, mapeada no projeto Procordilheira/SGB. Em vermelho, a área prevista de abrigar sistemas hidrotermais, definida com base nos resultados da sondagem no ponto C45. O gráfico à direita mostra o pico de turbidez (diminuição da transparência da água) a 3.700 m de profundidade, detectado em 2013 durante e expedição PROCORDILHEIRA IV e indicador de atividade hidrotermal. A diminuição da transparência ocorre por conta das plumas de fluido hidrotermal saturado de partículas minerais. Foram observados outros indicadores de hidrotermalismo na estação C45: anomalias de temperatura, salinidade e oxigênio.



Cooperação internacional

A descoberta foi resultado de uma cooperação científica internacional. Ao identificar que a expedição navegava próximo a uma das áreas previamente mapeadas pelo SGB, a Divisão de Geologia Marinha viu a oportunidade e, apoiados pelo Diretor de Geologia e  Recursos Minerais, Dr. Valdir Silveira, compartilharam com a equipe embarcada a localização do alvo identificado durante o Projeto Procordilheira.

Para o pesquisador do SGB e oceanógrafo Vadim Harlamov, líder do projeto, o episódio demonstra a importância da integração entre instituições científicas. “Não havia perspectiva de visitarmos a região; a prioridade nos próximos anos é explorar outras áreas, mais próximas da costa brasileira e consideradas mais promissoras. Não fosse pela iniciativa da nossa equipe em notificar os pesquisadores da expedição, demoraríamos anos, talvez décadas, para conhecer esse ambiente”, afirma Vadim Harlamov, oceanógrafo do SGB e líder do Procordilheira.

Durante a transmissão ao vivo da expedição, o pesquisador-chefe da missão, Aaron Micallef, destacou que a descoberta foi possível pela “colaboração científica envolvendo os cientistas russos, pioneiros na área há 20 anos, o SGB e os pesquisadores embarcados munidos de tecnologia adequada”. [incluir vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=0iuGdpTY-Ss]

 



Descoberta 
Após um dia de levantamentos geofísicos e oceanográficos utilizando AUV (Veículo Autónomo Subaquático ) a área de interesse foi confirmada.  No dia seguinte a equipe do SOI realizou um mergulho científico com o ROV para explorar o fundo oceânico e coletar amostras de rochas, fluidos e organismos. Cerca de duas horas após o início da descida, a aproximadamente 4 mil metros de profundidade, surgiram as primeiras imagens em alta definição do sistema hidrotermal.

As gravações revelaram um conjunto de elevações e chaminés hidrotermais ativas, liberando fluidos escuros enriquecidos em minerais metálicos, bem como outras inativas. Em alguns pontos, as temperaturas ultrapassavam 200°C, cerca de 100 vezes superiores à temperatura da água ao redor. O local também abriga uma rica biodiversidade formada por crustáceos, moluscos, anelídeos e outros organismos adaptados a condições extremas.

“Foi muito gratificante observar diretamente o fundo marinho que, até então, conhecíamos apenas por mapas geofísicos e de relevo. Testemunhamos hoje a rapidez com que a informação geocientífica, catalisada pela cooperação e tecnologia, resulta em ciência de ponta”, constata a geóloga Patrícia Alencar, integrante do Procordilheira.

O chefe da Divisão de Geologia Marinha do SGB, Valter Sobrinho, ressalta que a descoberta evidencia a relevância das informações produzidas pelo órgão para o avanço do conhecimento científico. “Certamente, essa descoberta é resultado de um esforço cooperativo, cujo elo final foi consolidado pela equipe liderada pelo Dr. Aaron Micaleff. Nessa cadeia de eventos, é gratificante constatar que o SGB vem cumprindo seu papel de gerar e disseminar informações geocientíficas, contribuindo para o avanço do conhecimento sobre o mar profundo, como esta descoberta mais uma vez demonstra”, conclui.

O campo hidrotermal está localizado em águas internacionais, região que não pertence a nenhum país e cujos recursos naturais são considerados patrimônio comum da humanidade. A descoberta amplia o conhecimento sobre ambientes ainda pouco explorados do planeta e reforça a importância da pesquisa científica para compreender a dinâmica dos oceanos, seus ecossistemas e os desafios relacionados à conservação do mar, diante das funções ecossistêmicas e fragilidades perante a emergência climática e os avanços da mineração marinha.

O SGB adere aos protocolos internacionais nos projetos de pesquisa marinha, executando o levantamento ambiental prévio das áreas de interesse, movido pelo lema “conhecer para proteger”.

Assessoria de Comunicação
Serviço Geológico do Brasil

Ministério de Minas e Energia
Governo Federal
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