Homenagem do CGA a um geólogo autêntico: Lineu A. Saboia
Homenagem do CGA a um geólogo autêntico: Lineu A. Saboia
Eu trabalhava no setor de Petrografia com a Celene, na METAGO, em 1978. Em uma das inúmeras sextas-feiras escaldantes de Goiânia, estendi um pouco o expediente. Estava redigindo o trecho final da minha tese, mergulhado nas dúvidas quanto à existência de lavas ultramáficas komatiíticas em Fortaleza de Minas. Lamentei a perda do chope que já devia estar rolando entre os amigos Paulo Afonso, Caramori e Cordeiro quando, de repente, recebo na minha sala uma pessoa de aspecto bem geológico: cabelo malcuidado, botas, magro. Disse: “pediram para conversar com você”. Depois dessa memorável conversa, para meu benefício, nossas vidas permaneceram sempre muito próximas.
Mostrei ao Lineu algumas rochas, entre elas um serpentina–tremolita xisto, com ripas alongadas e porções maciças. Lineu havia terminado sua tese em um dos depósitos de níquel sulfetado hospedados em lavas ultramáficas do Thompson Belt, no Canadá. Para minha decepção, ele não achou que a textura do meu xisto fosse spinifex. Avisou, então, que precisava encerrar a conversa, pois tinha de preparar a viagem da segunda-feira para Goiás Velho e Pilar, com um grupo de geólogos da METAGO liderado pelo professor Danni. Lineu e Gembrim, dias depois, se separariam do grupo, seguindo viagem para Crixás.
Já se passavam mais de dez anos desde que Anhaeusser e os irmãos Viljoen haviam mapeado os derrames ultramáficos no vale do rio Komati. No Brasil, os professores Almeida e Schorscher haviam acabado de definir o Grupo Rio das Velhas como um greenstone belt, a partir da identificação de texturas spinifex em meta-ultramáficas do rio Quebra-Ossos. A história do conhecimento dos terrenos arqueanos no Brasil gira, em grande parte, em torno da identificação das texturas spinifex em rochas meta-ultramáficas.
Luciano Jacques de Moraes, em 1937, descrevera serpentinitos em camadas estreitas, intercaladas e harmonicamente dobradas com BIFs, nas encostas do Morro do Níquel, no município de Pratápolis (MG). Os professores Danni, Fuck e Dardenne identificaram serpentinitos e clorita- xistos que, pelas feições de campo, pareciam ter escorrido horizontalmente como lavas sobre granitos e gnaisses do embasamento. José C.M. Danni e Carlos C. Ribeiro caracterizaram a região de Pilar–Guarinos como um greenstone belt, com significativa ocorrência de meta-ultramáficas
— mas spinifex, nada.
Quando voltou da viagem a Crixás, Lineu me chamou à sua sala e mostrou um enorme bloco no qual era possível identificar perfeitamente uma textura spinifex muito fina, que gradativamente passava para ripas alongadas entrelaçadas em ângulo, depois paralelas horizontais e, finalmente, para uma base maciça. Era um pedaço completo de um fluxo komatiítico. Dois dias depois, generosamente, Lineu me levou para Crixás. Passamos o mês de dezembro debaixo de chuvas, mapeando o córrego Alagadinho, extasiados com a beleza da preservação de uma das melhores exposições de lavas ultramáficas arqueanas do planeta. Ao final, definimos a estratigrafia de um greenstone belt arqueano extremamente característico. Era como se estivéssemos no Abitibi, em Yilgarn ou em Barberton. Sabíamos que, em nossas caminhadas, a qualquer momento poderíamos tropeçar em um gossan que nos levaria a algo como Kambalda. Foi um mês de puro entusiasmo.
Durante essa viagem, convivi com o lado humano do Lineu. Ele adorava crianças. Naquela época, o dono do Hotel Palace, em Crixás, tinha um garotinho com quem Lineu passava bom tempo, ensinando-o a andar. Tirei enorme proveito profissional do seu convívio. O sucesso da descoberta foi relevante, pois encontrar spinifex no Brasil havia se tornado uma verdadeira obsessão. Durante quase um ano, Lineu viajava semanalmente para o córrego Alagadinho, mostrando a centenas de geólogos brasileiros — e alguns estrangeiros — a beleza da geologia arqueana de Goiás. Alguns engraçadinhos perguntavam: “qual é mesmo a cotação do spinifex na LME? ”. Mas o fato é que a exploração de ouro em Goiás ganhou enorme impulso a partir dos trabalhos publicados sobre Crixás.
Nos trabalhos de campo em Goiás, fomos traídos pela ausência de datações geocronológicas, o que nos levou a interpretar o atual arco magmático de Goiás como um greenstone belt. Lineu, porém, era inquieto e nunca permanecia muito tempo nos empregos. Começou na INCO do Brasil, foi para o Canadá, voltou para a METAGO e depois passou pela Billiton, BP e Vale. Quando saí da METAGO e fui para a BP pelas mãos do Gilberto Meneguesso, convencemos o Ysao a contratá-lo. Nesse período, juntos, caracterizamos várias sequências vulcanossedimentares do Brasil. Lineu ficou mais no Nordeste; eu, principalmente em Minas Gerais. Identificamos inúmeros derrames ultramáficos, o que permitiu indicar várias áreas para aplicação de programas exploratórios visando níquel sulfetado, cobre-zinco e ouro. Era uma época em que se fazia exploração de verdade no Brasil. Desse trabalho exploratório inicial decorreram inúmeras teses de doutorado e mestrado.
Lineu deixou a BP de forma incompreensível e resolveu se aventurar nos garimpos de ouro de Alta Floresta. Era inquieto e tinha faro de exploracionista; o ouro o atraía. Embrenhou-se mata adentro, o que resultou em sucessivos episódios de malária que quase lhe custaram a vida. Amava a liberdade e odiava a rigidez da disciplina empresarial. Cansado do garimpo, retornou ao emprego fixo na Vale do Rio Doce, por intermédio de um amigo de escola. Não teve vida fácil. Posicionado entre os grupos de ouro e de metais básicos, precisou buscar uma mediação difícil de viabilizar. Quando a Vale decidiu internacionalizar a exploração, lá estava ele como alternativa natural. A Cordilheira Andina, da Argentina ao Peru, passou a ser seu novo desafio profissional. Mas as obrigações gerenciais o incomodavam. O que ele queria mesmo era procurar cobre nos desertos e nos picos das montanhas.
A Vale não queria apenas a América do Sul e, logo, reconheceu a bravura do exploracionista enviando-o para a África. Novamente como gerente, teve de conviver com a burocracia inevitável: controles, políticas corporativas e relatórios constantes — tudo aquilo que, segundo ele, dificultava a verdadeira busca por minério. Quando cheguei a Johanesburgo, tive a alegria de devolver-lhe um pouco do que ele muito me dera: reconheci seu valor como geólogo, protegi-o da burocracia e pude aproveitá-lo na plenitude de suas capacidades. Em um ano, fechamos escritórios em países sem potencial e focamos no que realmente tinha valor exploratório.
Se fosse pelo Lineu, não teria saído uma única linha dos seus trabalhos de campo: não gostava de caderneta. Não tinha, nenhuma vaidade pessoal e adorava transmitir o que sabia diante dos afloramentos. Participou ativamente das manifestações pela democracia oriundas do movimento hippie, período em que conheceu sua eterna companheira, Cléo. Lineu jamais poderia ter vivido como sempre quis — andando pelo mato — não fosse o amor inseparável de sua vida, sua companheira. Amava profundamente os três filhos, que jamais conheceram qualquer forma de repressão paterna. Nos últimos anos, a vida nos afastou, privando-me de seu convívio, sempre marcado por intermináveis discussões geológicas ou políticas, quando ainda tínhamos esperanças.
A partida de Lineu Almeida Saboia marca um momento de profunda tristeza para todos que com ele conviveram e aprenderam.
Por Noevaldo A. Teixeira